Tenho lesão no menisco. Preciso de cirurgia?
As lesões meniscais:
A lesão do menisco é uma das causas mais frequentes de dor no joelho, tanto em atletas quanto em pessoas sedentárias. Quando um paciente recebe esse diagnóstico, é comum que surjam dúvidas e preocupações sobre a necessidade de cirurgia. A resposta é: nem toda lesão meniscal precisa ser operada, e o avanço das pesquisas tem reforçado a importância de uma abordagem individualizada, pois as características da lesão e do paciente que a tem é o que definirá a conduta.
O que é o menisco e qual sua função no joelho?
O menisco é uma estrutura fibrocartilaginosa presente entre o fêmur e a tíbia, funcionando como uma espécie de amortecedor natural. Ele ajuda a distribuir as cargas durante os movimentos, estabilizar a articulação e proteger a cartilagem. Cada joelho possui dois meniscos: o medial (do lado de dentro do joelho) e o lateral.
As lesões podem ocorrer por trauma (em adolescentes e adultos jovens, geralmente associadas ao esporte) ou por degeneração (mais comum, frequente em pacientes com mais de 40 anos). Os sintomas mais relatados incluem:
- Dor localizada, principalmente ao agachar ou girar o joelho;
- Inchaço e limitação da amplitude de movimento;
- Estalidos, bloqueios ou sensação de joelho “travando”;.
Quando não preciso da cirurgia?
Segundo as evidências científicas, pacientes com lesões meniscais degenerativas e sem sintomas mecânicos importantes devem iniciar seu tratamento de forma conservadora. Essa conduta inclui:
- Fisioterapia direcionada, com foco em fortalecimento de quadríceps, glúteos e core;
- Modificações nas atividades que causam dor;
- Uso de medicações analgésicas e anti-inflamatórias, quando indicadas;
- Infiltrações intra-articulares em casos selecionados.
Em mais da metade dos pacientes com lesões degenerativas simples, a melhora clínica é significativa com reabilitação adequada, especialmente se o alinhamento do joelho estiver preservado e não houver instabilidade ligamentar associada.
E quando que precisa operar?
Nem todas as lesões meniscais são iguais, e cada paciente apresenta uma demanda funcional e condições associadas distintas, como lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) ou desalinhamentos do joelho. Considerando apenas a rotura meniscal isolada, a decisão por tratamento cirúrgico depende principalmente do tipo de lesão, sua localização e estabilidade.
A seguir, estão os tipos de lesões que mais frequentemente podem exigir intervenção cirúrgica:
- Lesão em alça de balde (bucket-handle):Tipo instável, onde o fragmento deslocado pode causar bloqueio do joelho.
- Lesão radial completa: Interrompe a continuidade das fibras e prejudica a função meniscal
- Lesão complexa com flap instável: Pode se prender na articulação, provocando dor aguda e estalos.
- Lesões traumáticas em zona vermelha (bem vascularizada):Podem ser tratadas com sutura, especialmente em pacientes jovens e ativos.


Lesão em alça de balde do menisco.
Fonte: Adaptado de Lefevre et al. (2016)
Lesão radial completa com separação entre as partes do menisco.
Fonte: Adaptado de Lefevre et al. (2016)
A ressonância define se preciso operar?
Não. Esse é um ponto importante: a presença de uma lesão meniscal na ressonância magnética, isoladamente, não é indicação de cirurgia.
Alterações nos meniscos são frequentemente encontradas em exames de pessoas sem qualquer dor no joelho, especialmente com o avanço da idade. Por isso, o resultado da ressonância deve sempre ser interpretado em conjunto com os sintomas, o exame físico, a idade, o nível de atividade e a presença de outras alterações no joelho.
Quando a cirurgia é indicada, é preciso retirar o menisco?
Não necessariamente. Atualmente, quando bem indicado, o objetivo do tratamento cirúrgico é preservar o menisco fazendo o reparo da lesão.
Durante muitos anos, a retirada da parte lesionada do menisco (meniscectomia) foi um procedimento realizado com bastante frequência. Hoje sabemos que a perda de tecido meniscal aumenta a sobrecarga sobre a cartilagem do joelho e pode contribuir para o desenvolvimento de artrose ao longo dos anos. Por isso, quando a lesão apresenta características favoráveis, a sutura meniscal, que busca reparar e preservar o menisco, é preferida.
Entretanto, nem toda lesão pode ser suturada. Lesões degenerativas, fragmentos com baixa capacidade de cicatrização ou determinados padrões de rotura podem exigir a retirada apenas da porção instável do menisco. A escolha depende do tipo, localização e tamanho da lesão, da qualidade do tecido e das características de cada paciente.
Então, qual é o melhor tratamento?
Não existe uma resposta única. Duas pessoas com lesões aparentemente semelhantes na ressonância podem receber tratamentos completamente diferentes.
Em muitos casos, principalmente nas lesões degenerativas, o tratamento conservador com fisioterapia é a abordagem inicial. Em outros, especialmente nas lesões traumáticas instáveis, que provocam bloqueio do joelho ou que estão associadas a lesões ligamentares instáveis, o tratamento cirúrgico pode ser indicado.
Por esse motivo, a avaliação por um ortopedista especialista em joelho é importante para determinar se a lesão encontrada no exame realmente é responsável pelos sintomas e definir, junto com o paciente, a estratégia de tratamento mais adequada.
Referências
- Prill R, Ma CB, Giordano AO, Pujol N, et al. The formal EU-US Meniscus Rehabilitation 2024 Consensus: an ESSKA-AOSSM-AASPT initiative. Part II—Prevention, non-operative treatment and return to sport. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2025;33:3014-3024. doi:10.1002/ksa.12689.
- American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS). Management of Acute Isolated Meniscal Pathology: Evidence-Based Clinical Practice Guideline. Rosemont, IL: AAOS; 2024.
- Noorduyn JCA, van de Graaf VA, Willigenburg NW, et al. Effect of physical therapy vs arthroscopic partial meniscectomy in people with degenerative meniscal tears: five-year follow-up of the ESCAPE randomized clinical trial. JAMA Netw Open. 2022;5(7). doi:10.1001/jamanetworkopen.2022.20394.


